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DOS RASOS DO MUNDO AO PROFUNDO DE SI: uma reflexão vocacional a partir d'A terceira margem do rio

15.06.2021

O conto A terceira margem do rio, de Guimarães Rosa, incluso na coletânea de contos Primeiras Estórias, publicado em 1962, é um texto emblemático, pauta para reflexões literárias, linguísticas, filosóficas, antropológicas, psicológicas... e, por que não, teológicas?

O filho relata a "doideira" do "nosso pai" que manda construir uma "canoa especial... pequena... para caber o justo remador" e se lança rio adentro sem nada falar, levar, explicar, precisar. Sem ir e sem voltar, "nosso pai" "executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio". Os parentes, os vizinhos, os conhecidos buscam entender o ocorrido, tomando "juntamente conselho". Doideira? Promessa? Doença? Mas "nosso pai", "sentado no fundo da canoa, suspendia no liso do rio". Vem o tio, o mestre, o padre, dois soldados... "tudo o que não valeu de nada".

Foi preciso "de se acostumar com aquilo". A família segue, se desfaz... a filha casa, tem filho... o irmão muda para uma cidade... a mãe vai morar com a filha... restam apenas o filho e o "nosso pai". No "demoramento" da vida, o filho "sofria já o começo da velhice" e se culpava pela situação... "Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro." Insurge um princípio de decisão: "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais...  O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo seu lugar, do senhor, na canoa!...". Não era decisão: "Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá... Sofri o grave frio dos medos, adoeci. (...) Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo."

A dinâmica da vocação - chamado-resposta - parece ganhar espaço ou, pelo menos, deixa-se iluminar nas entrelinhas do conto rosiano: não seria a experiência vocacional um passar a outra margem, como nos aponta o Mestre Jesus? (cf. Mc 4,35). Cada um de nós é chamado, como o pai, a lançar-se no rio da própria existência, da história, da vida, da morte. E, sem desconsiderar o caráter comunitário da vocação cristã, aprender que a resposta é sempre individual. Na canoa especial, pequena, da nossa vocação cabe o justo vocacionado. Ninguém poderá fazer essa experiência no meu lugar, ninguém poderá dizer o "sim" ou o "não", que só a mim cabe dizer.

Abrir mão dos excessos, das matulas, das trouxas e, por vezes, das palavras, é o jeito de ir ao encontro da Palavra-Silêncio que chama, grita, sussurra ao coração, à razão um sentido para a doideira da vida. E ainda que não seja fácil compreender e ser compreendido - nem sempre entendemos tudo, nem sempre nos entenderão - há que se abraçar as exigências desse chamado.

Por vezes, como sucedeu ao filho, pode nos espantar decisão tão segura de outrem... e também nos motivar a nossa própria decisão. Vocação é decisão! E aqui é preciso a coragem, a fé capaz de aquecer o grave frio dos medos que nos impedem singrar rumo à terceira margem, ao profundo de nós mesmos e aí "se permanecer". Não deixemos que seja tarde... a vida é mistério demais para ser abreviada nos rasos do mundo.

Arrisquemo-nos! Vamos... você... eu... "rio abaixo, rio a fora, rio a dentro" - vocação!



Frei Tailer Douglas Ferreira, OSA