Pe. José Laércio de
Lima.sj1
1. O Discernimento
espiritual e base humana
Se
queremos falar sobre o Discernimento Espiritual, devemos partir do ponto
basilar, que é a necessidade da prática
da oração pessoal e de quem está no processo de amadurecimento humano. Esses
dois pré-requisitos capacitarão aqueles que desejam se deixar mover pela voz do Senhor. O cotidiano será o lugar do
encontro dessa vontade, basta ter os ouvidos atentos, abertos ao que Deus já
fala constantemente. É um equívoco pensar que o discernimento profundo, que
busca encontrar a vontade de Deus, pode ser feito de qualquer modo e a qualquer custo.
A oração pessoal e a maturidade humana, junto com uma metodologia,
capacitam o exercitante para discernir a vontade de Deus. Isso não significa
aprisionar o Espírito, mas ordenar a nossa alma, pois já sabemos que, se não
cuidarmos dela, afinando-a como a um instrumento musical, ela não será capaz de
dar o tom na sinfonia da nossa vida. Por isso,
discernir é uma decisão difícil, requer trabalho, e nos pede coragem,
maturidade. Podemos lembrar-nos do exemplo de Inácio de Loyola, que passou a
vida toda sendo afinado, como a um instrumento; o seu coração,
alma, sentidos precisaram ser ordenados, “domados”, treinados para melhor escutar a
Deus.
Todo o processo de caminhada e peregrinação na vida de qualquer pessoa,
seja interior, seja exterior, necessita ser vivido
como processo que nos forma,
para reconhecer a voz de Deus
no cotidiano, no encontro com as pessoas, isto é, no mundo. Somente quando
crescermos na capacidade de perceber “Deus diante dos olhos”, aquele que age,
trabalha e atua em todas as coisas, perceberemos que encontrar Deus é mais
fácil do que imaginamos. Porém, as partes mais
difíceis no processo
de discernimento são: primeiro, encontrar a sua vontade entre tantas;
e segundo, sustentar na vida pessoal
a vontade de Deus. Isso, porque se o encontramos de verdade, Ele nos fala; ao
nos falar, devemos responder à altura.
Se
não temos estrutura humana, se a nossa história pessoal ou realidade social
está a todo momento trabalhando contra nós, certamente será ainda mais difícil
sustentar o resultado de qualquer discernimento, como fruto da vontade de Deus.
Dessa forma, torna-se essencial a tomada de consciência de influências que
sofremos, que nossas histórias sofrem, e das condições que temos hoje de colocar
em prática, as decisões que tomamos guiadas
pelo Espírito de Deus.
2.
Quando
podemos fazer discernimento espiritual?
Pode-se
fazer discernimento para tudo? Sim e não, como diria o nosso Pe. Libânio. O ato de discernir pode ser usado como sinônimo
de fazer escolhas,
então a resposta
é sim, porque a vida é feita de escolhas. Porém, nem todas as vezes
que falamos em discernimento, estamos falando em discernimento espiritual.
Sendo assim, muitas escolhas que fazemos não estão ligadas à opção fundamental das nossas vidas.
Todavia, é na simplicidade do dia a dia, mediada pela oração, pelo exame de
consciência, pelo diálogo espiritual e, para quem pode, pelo acompanhamento espiritual, que mora a oportunidade de discernir, para encontrar a vontade de Deus. Esse processo de silêncio,
oração pessoal e acompanhamento pessoal nos ajudam a tirar as cinzas dos nossos olhos e do nosso coração,
tirar as cinzas
de tantos equívocos
que fazemos hoje; partes do
nosso passado morto, mas que continuam, às vezes, a nos incomodar, tirando a nossa liberdade e capacidade de
lucidez, para ver o presente e o futuro.
Papa
Francisco nos ajuda, quando fala na Gaudete
et exsultate que podemos viver dispersos, perdendo o foco da vida e, assim,
perdendo a capacidade de verdade, discernir e encontrar a vontade de Deus, pois
pode ser que aquilo que aparece como novo, na verdade, é uma “novidade
enganadora do espírito do mundo ou do espírito do maligno” (GE 168).
Hoje
em dia, tornou-se particularmente necessária a capacidade de discernimento,
porque a vida atual oferece
enormes possibilidades de ação e distração, sendo-nos
apresentadas pelo mundo, como se fossem todas válidas e boas. Todos, mas
especialmente os jovens, estão sujeitos a um zapping constante. É possível navegar simultaneamente em duas ou
três telas e interagir, ao mesmo tempo, em diferentes cenários
virtuais. Sem a sabedoria do discernimento,
podemos facilmente transformar-nos em marionetes, à mercê das tendências da
ocasião (GE 167).
Sendo
assim, a “mundanidade espiritual” pode ser uma realidade em nosso modo de tomar decisões
e de influenciar a caminhada
cristã, quando valorizamos mais as aparências das coisas do que a verdade
que nos habita. Santo Inácio já nos alerta para esse olhar profundo que é “ter
Deus diante dos olhos“, ou seja,
desde a nossa intimidade, deve brotar a capacidade de olhar a realidade com a ótica de Deus. O modo como Deus nos olha é
profundo, é salvação, desde sempre e para sempre, e nada impedirá a sua
salvação (Eclesiástico 39,12-31). Por conseguinte, a capacidade de enxergar as
coisas com um olhar diferenciado e profundo vai ajudar a encontrar a vontade de
Deus no cotidiano, pois é isso que buscamos na vida, fazer tudo o que ele nos
disser (Bodas de Caná/Jo 2,1-12).
3.
O
Chão da juventude
O Discernimento Espiritual é um trabalho incansável, que nos pede constante exercício interior pessoal. Desse modo, é
preciso ver a terra, o chão de quem faz o discernimento, a fim de perceber
se há substrato, alicerces, isto é, condições
de sustentar a decisão tomada.
Quando falamos, por exemplo,
do Discernimento Espiritual na vida das juventudes, percebemos que há uma parte
da juventude que não ousa sequer sonhar,
pois é impedida a todo instante. Em outros
casos, não há horizontes para os sonhos, há apenas ilusões. Para alguns jovens,
o máximo que conseguem sonhar é ser um(a) cantor(a) famoso(a) ou um(a)
jogador(a) de futebol. Mas lhes faltam horizontes para sonhar com algo que os transcenda.
Aí está o perigo,
os sonhos muitas
vezes são básicos,
como trabalho e realização, porém esses “sonhos” não deveriam ser
sonhos, pois todos deveriam ter acesso a isso. Muitas vezes, há apenas a ilusão
que ocupa a mente e o coração de muitos jovens. Essa ilusão é a de que a
felicidade baterá à sua porta, leia-se aqui a fama. Para isso, alguns estão
dispostos a tudo. A vulgaridade se mistura
com o cotidiano das criaturas que perambulam pela vida, quase que sem alma. Essa realidade descrita não é a
totalidade, mas diz respeito a uma considerável parcela das juventudes. Fica difícil compreender a circunstância, se só a observarmos desde uma visão acadêmica universitária, ou desde
os balcões de alguns dos grandes teólogos que são doutores em teologia, mas
analfabetos em humanidades e até mesmo em desumanidades.
O
chão das juventudes, lá de onde eles partem para tomar as decisões mais
profundas de suas vidas, está marcado pela droga, pelo sangue, especialmente
dos pobres. O chão das juventudes é o mesmo das cadeias que geram injustiça,
dos cárceres que geram violência, morte, dor, dos transtornos profundos na alma
e na vida de quem passa por lá.
É preciso considerar as juventudes, considerar o chão das juventudes, o
coração das juventudes. Às vezes, corremos o risco de falar para nós mesmos,
sem considerar a realidade daqueles jovens, dos quais não temos acesso. O nosso
olhar não deve ficar condicionado aos jovens da Igreja, das nossas sacristias. Esses jovens que são bons,
santos, e que trazem elementos vocacionais, aqueles a quem
muitas vezes nós incensamos e incentivamos, estão também marcados
pela vida de milhões de jovens que não conseguem planejar
a sua vida, fazer um projeto de vida; muito menos discernir a vocação. O chão das nossas juventudes é terreno minado e marcado
pelo abuso sexual dentro
da família, pelo assédio da sociedade, daí que ao discernir a vocação e se
perguntar pela voz de Deus que fala dentro de cada um, não podem ficar de fora
a dor e a realidade que, muitas vezes, os nossos projetos e planos vocacionais
não contemplam.
Não
é difícil encontrar jovens que tenham uma reta intenção, um desejo profundo,
porém que tenham uma terra frágil, sem raiz e sem consistência para assumir as
próprias decisões. Esse elemento também é característica da sociedade atual, na
qual vivemos, e que conhecemos por “sociedade líquida”, “tempos líquidos”, eu
diria, corações líquidos.
A ilusão do sucesso a qualquer custo aliena e esvazia as juventudes. Como falei acima, o sonho não consegue ir além da
vida financeira, em detrimento da dimensão espiritual. Sem falar que na maioria
das vezes, a vida espiritual também é alienante, especialmente quando não permite que o jovem veja em profundidade a realidade que o cerca.
A espiritualidade não pode
ser limitante, mas abrangente.
Dentro
da realidade atual, é importante que cada cristão crie uma relação com Deus,
que podemos chamar de “verificação vertical”2, ou seja,
uma experiência fundante,
aquela que ninguém pode dar,
tão pouco, ninguém poderá tirá-la. Contudo, será preciso que cada pessoa sinta, viva, experimente. Essa experiência fundante
ajudará a que nos configuremos nos moldes culturais
de nosso tempo, da mesma forma que nossos antepassados fizeram no seu.
Logo,
o caminho será ajudar a criar horizontes espirituais, desde o chão que pisa
cada jovem, auxiliando-o a ser capaz de levantar o véu da realidade e, assim,
crescerem em maturidade suficiente para assumir as decisões tomadas.